sexta-feira, 8 de junho de 2018

A crise do cobalto pode acabar com os carros elétricos

Produção mundial em toneladas no último ano destacam a proeminência do país

Como um ingrediente essencial em baterias de íons de lítio que alimentam desde os milhões de smartphones até os milhares de carros elétricos, o cobalto está em alta. Mas ao mesmo tempo que cresce em demanda, crescem os problemas éticos e econômicos à sua volta. 
Hoje a maior parte da produção mundial de cobalto está concentrada na República Democrática do Congo - nada mais nada menos do que 54% do cobalto consumido no mundo é abastecido pelas minas congolesas. O problema é que o Congo está sob um estado de caos deliberado há décadas.
A República Democrática do Congo é um país relativamente jovem - sua total independência só ocorreu em 1960 - mas com tempo suficiente para ser atingido por duas guerras civis extremamente violentas. Por lá as leis e justiça muitas vezes parecem não existir e as instituições são tão corruptas quanto aquelas que estamos acostumados a ver por aqui. A situação no país está tão conturbada que a última eleição presidencial está marcada para dezembro quando deveria ter acontecido há dois anos. 
Em um país tão bagunçado o desenvolvimento de uma atividade econômica e produtiva mais complexa é difícil, assim a mineração acaba sendo um de seus pilares econômicos. Até aí tudo bem, mas o problema é que o trabalho, na maioria das vezes, é feito muitas vezes por freelancers (conhecidos pela palavra francesa creuseurs) expostos a condições perigosas e insalubres. Não raramente quem tem a missão de trazer o mineral para a superfície são crianças.
Segundo um relatório de 2016 da Anistia Internacional as estimativas da UNICEF dão conta de que cerca de 40.000 meninos e meninas trabalhem nas minas do Congo, inclusive naquelas de cobalto, sem luvas, máscaras ou qualquer equipamento que evite que elas morram após uma queda, deslizamento, etc.
Por ser um problema público e internacional a Tesla já disse não usar cobalto oriundo do Congo, o que torna a maior empresa de carros elétricos do mundo ainda mais vulnerável aos riscos da oferta/demanda. E se você acha radical demais a ideia de cortar totalmente um fornecedor (que por acaso é o maior do mundo) a medida se justifica na dificuldade em rastrear o minério e ter certeza de estar usando em seus veículos algo que seja legal, em todos os sentidos. Rastrear a origem do metal depois que ele atinge o fim da cadeia de fornecimento é muito difícil (para não dizer impossível) já que grandes empresas não compram X quilos de um pequeno fornecedor aqui, depois X quilos de outro acolá e assim por diante. Como em todos os negócios, nas transações de cobalto também há um intermediador.
Esse intermediário local é quem recebe o insumo de dezenas de pequenos fornecedores - inclusive daqueles que usam trabalho infantil - e vende para uma empresa de fundição chinesa que irá juntar com os lotes comprados de diversos outros intermediários e depois vender o produto final para as grandes marcas. E aí, como saber de onde que veio aquele cobalto? Como saber se ele usou mão de obra infantil ou se ele é fruto de trabalho escravo?
E por falar em China, ela é uma peça fundamental desse jogo de escassez de matéria-prima. Para manter suas linhas de montagem a pleno vapor o país mexeu os pauzinhos até controlar mais da metade do cobalto em circulação no mundo. De acordo com o CRU Group, especializado em consultoria mineral, a China controla 62% da oferta mundial de cobalto, sendo que desta quantia, 90% vem do Congo.
Acima a evolução da mineração mundial de cobalto e abaixo como ele é consumido

A consequência direta da investida chinesa é que agora as montadoras norte-americanas e europeias tem que lutar para assinar contratos de fornecimento e garantir o necessário de matérias-primas para incluir nas suas baterias. Ou seja, além de uma possível escassez quem quiser cobalto nos próximos anos precisará negociar com um possível monopólio.
De outro lado procura-se por novas minas a serem exploradas. No Canadá, por exemplo, potenciais locais estão sendo prospectados. O problema é que mesmo sendo o 4º maior produtor mundial a disparidade entre suas 5 mil toneladas produzidas no ano passado não dá nem 10% do que o Congo produziu no mesmo período. O mundo é dependente do cobalto congolês.
O que fazer então? Cortar o cobalto das baterias? Essa não seria uma boa ideia, afinal ninguém quer perder autonomia seja no smartphone ou no veículo elétrico. O que nos resta é a iniciativa de algumas empresas e pesquisadores que trabalham no desenvolvimento de baterias para carros elétricos que dependam menos de cobalto.
Segundo a Reuters duas empresas sul-coreanas planejam lançar baterias com oito partes de níquel e apenas uma parte de cobalto e outra de manganês. Parece promissor, mas Marc Grynberg, executivo da Umicore - uma multinacional belga de mineração - deu um banho de água fria nas expectativas. Segundo ele "Não há um elemento melhor do que o cobalto para tornar as coisas estáveis [..] encontrar uma forma de substituir o cobalto não vai acontecer pelas próximas três décadas.”
Melhor que isso, segundo ele, seria mover os esforços centrados em encontrar um substituto para o cobalto para encontrar uma maneira mais eficiente de reciclar smartphones. Existem cerca de 1.6 bilhão de telefones descartados irregularmente no mundo, cada um com suas baterias que incluem cobalto. Para piorar, baterias de carros elétricos são mais difíceis de reciclar do que baterias tradicionais de carros à gasolina compostas de chumbo-ácido (devido ao grande número de materiais envolvidos e às diferenças na forma como são construídas) e do que as baterias de smartphones.
Segundo Lauren Fix, especialista em automóveis, "Até que haja um material de reposição que possa criar e segurar uma carga elétrica, temos um problema [...] enquanto isso a Tesla, a GM ou qualquer outra empresa terá que elevar o preço do veículo para tentar compensar o aumento dos custos associado à demanda crescente e ao fornecimento finito de cobalto"
E essa questão do preço dos veículos é de suma importância. Pela primeira vez as montadoras estão conseguindo produzir carros elétricos baratos e voltado às massas graças ao efeito cascata decorrente da melhoria na tecnologia empregada e que gera uma queda nos preços de insumos e matérias-primas, que gera uma queda no preço dos veículos, que gera um aumento no número de vendas de carros, que gera um aumento na produção e assim por diante.
Agora, com um insumo necessário mais escasso irá ocorrer o efeito inversamente proporcional: os preços das matérias-primas aumentarão, o preço dos veículos voltará a subir, menos pessoas comprarão, com menor produção o custo para cada unidade produzida aumenta e assim por diante até os carros elétricos estarem condenados.
A comunidade internacional denuncia as condições de trabalho das minas congolesas